Vítima em várias ocasiões da rivalidade entre as grandes potências, a Bélgica tem desempenhado desde o fim da segunda guerra mundial um papel decisivo para a união européia. No entanto, o fato de ser formada por duas comunidades de cultura e língua distintas desequilibra, vez por outra, sua própria unidade interna.
Origens:
O território belga foi habitado desde o paleolítico inferior. As diversas culturas que se propagaram desde a Europa central até as ilhas britânicas, assim como as que ascenderam das margens do Mediterrâneo até o norte, pelo rio Reno, deixaram suas marcas nesse país de solo rico e cultivado desde o final do quinto milênio antes da era cristã. No entanto, a entrada do território da Bélgica na história só se deu com sua conquista por Júlio César, que, entre os anos 59 e 52 a.Cestendeu as fronteiras do Império Romano até as margens do Reno. O território era povoado por tribos belgas, pelo que os romanos o chamaram Gallia Bélgica.
Devido a sua situação fronteiriça, a Bélgica foi cedo afetada pelas invasões bárbaras. No século V os francos ocuparam o norte do país, enquanto na média e na alta Bélgica os romanos predominavam, dando origem aos atuais valões. Durante o período carolíngio a Bélgica foi repartida em condados. No século IX, os tratados de Verdun, Meerssen e Ribemont dividiram o país em dois, o que constitui a origem remota da atual divisão lingüística.
Encravados entre o reino francês e o império alemão, os territórios que hoje formam a Bélgica e os Países Baixos foram objeto de disputas constantes ao longo da Idade Média.
No final desse período o país viveu um notável florescimento comercial e também um desenvolvimento da vida urbana e das formas econômicas capitalistas que o transformaram em uma das regiões mais prósperas e povoadas da Europa.
Domínio espanhol. Filipe de Borgonha libertou o país da vassalagem ao rei da França no final do século XIV. Em 1528, os territórios do ducado de Borgonha foram herdados por Carlos I da Espanha e V da Alemanha. Iniciou-se um período de dominação espanhola, durante o qual as províncias do norte, que viriam a formar os Países Baixos, lideradas por uma burguesia em sua maior parte calvinista, se sublevaram contra o domínio de Filipe II, conseguindo sua independência, com o nome de Províncias Unidas, após longas e custosas lutas.
As províncias do sul, tanto as de língua francesa quanto as flamengas, ficaram sob o poder da coroa espanhola, devido ao fato de serem majoritariamente católicas e por causa da importância política que ainda tinha a nobreza. A decadência econômica do Flandres espanhola foi paralela à da monarquia hispânica. A primazia comercial, que na Idade Média pertencera a Bruges, passou no século XVI para Antuérpia. Não obstante, a intolerância ideológica, as vicissitudes da guerra e a desacertada política econômica de Filipe II, fizeram de Amsterdã, capital das Províncias Unidas, o centro econômico da Europa. Pela paz de Utrecht (1713), a Bélgica passou a ser governada pelo ramo austríaco da casa de Habsburgo.
Período revolucionário:
Em 1792, as tropas da república francesa revolucionária, em guerra com a Áustria, invadiram a Bélgica. Em março do ano seguinte os austríacos recuperaram o país, mas tiveram que abandoná-lo após nova ofensiva francesa. A Bélgica foi anexada à França, até que as derrotas de Napoleão permitiram sua autonomia, pela primeira paz de Paris, a 30 de maio de 1814. No ano seguinte teve lugar a campanha da Bélgica, na qual Napoleão derrotou em Ligny as tropas prussianas; em junho de 1815 Napoleão foi derrotado definitivamente pelos exércitos aliados na Bélgica, perto de Waterloo. Com a nova repartição da Europa, provocada pelo Congresso de Viena (1814-1815), a Bélgica passou a formar com a Holanda o novo reino dos Países Baixos, regido pela casa de Orange, sob o domínio de Guilherme I.
Criação do reino da Bélgica:
A dominação holandesa -- tentativa de impor o holandês como língua oficial e a orientação protestante no ensino -- provocou uma insurreição em Bruxelas em 1830, que proclamou a independência da Bélgica. As grandes potências, lideradas pelo Reino Unido e pela França, promoveram a neutralidade perpétua da Bélgica na Conferência de Londres, em 1831. Nesse mesmo ano, o novo rei, Leopoldo I de Saxe-Coburgo, jurou a constituição. Os Países Baixos só reconheceriam a independência belga em 1839, com a assinatura do Tratado de Londres, pelo qual a Bélgica incorporou o seu território parte de Luxemburgo.
A constituição de 1831 definiu a Bélgica como uma monarquia unitária, em que o rei compartilhava o poder com as duas câmaras legislativas.
Durante os reinados de Leopoldo I (1831-1865) e Leopoldo II (1865-1909), foi considerável o desenvolvimento econômico da Bélgica, apoiado na tradicional indústria têxtil e na recente indústria siderúrgica, alimentada pelo carvão da Valônia. O pequeno reino assumiu a dianteira entre as nações industrializadas da época e seu poder econômico espraiou-se muito além de suas fronteiras. Os partidos católico e liberais disputaram o poder durante decênios; uma das principais fontes de litígio foi a do ensino, que acarretou até o rompimento de relações com o Vaticano, quando, em 1880, os liberais impuseram seus princípios laicos.
O maior reduto do Partido Liberal era a Valônia, mais industrializada, enquanto os católicos, que governaram de 1884 até 1914, tinham apoio eleitoral nas regiões flamengas. Em face do domínio econômico e cultural valão, ganhou corpo na parte católica movimentos legislativo de apoio à paridade lingüística e outras reivindicações flamengas.
A partir de 1885 surgiu na arena política o Partido Operário Belga, como conseqüência da aliança entre socialistas e sindicalistas e da ação de um poderoso movimento cooperativo. Em 1893 se instituiu o sufrágio universal, mas a legislação estabelecia o voto plural (alguns eleitores podiam votar mais de uma vez), o que beneficiava as classes abastadas.
Este voto plural só foi suprimido depois da primeira guerra mundial.
Expansão colonial:
O desenvolvimento capitalista da Bélgica exigia, no contexto internacional do século XIX, a conquista de territórios coloniais para a obtenção de matérias-primas a baixo custo. A divisão da África entre as potências européias, consagrada na Conferência de Berlim, outorgou ao monarca belga, como patrimônio pessoal, um extenso território, o Estado Livre do Congo, explorado desde 1876 pela Associação Internacional Africana. Em 1908, ante o protesto da opinião pública mundial pela brutal exploração empreendida pela administração congolesa a serviço de Leopoldo II, o Estado Livre do Congo foi cedido como colônia à Bélgica.
Primeira guerra mundial:
Iniciado o conflito europeu em 1914, a Bélgica proclamou sua neutralidade, conservada desde sua fundação como país independente, em 1831; entretanto, tropas alemãs invadiram o país em 2 de agosto, como manobra para surpreender o Exército francês. No dia seguinte, o Reino Unido, através de um ultimato, exigiu a saída dos alemães e o respeito à neutralidade belga, determinando a entrada dos britânicos na guerra. O surpreso Exército belga tentou resistir aos alemães, mas foi derrotado.
O rei Alberto I (1904-1934) formou um gabinete de guerra com representantes dos principais partidos e transferiu a sede do governo para Antuérpia e posteriormente para o Havre. Somente uma pequena porção do território belga se livrou da ocupação alemã. Com o objetivo de conter a resistência nacional, os alemães impuseram uma separação formal entre as regiões flamenga e valã.
Período entre-guerras:
No fim da primeira guerra mundial a Bélgica obteve, por meio de um plebiscito que lhe foi favorável, a anexação de pequenos territórios alemães.
Na África, a Liga das Nações lhe confiou mandato sobre as colônias alemãs de Ruanda e Urundi, conquistadas por tropas belgas durante o conflito.
Na década de 1920 os católicos e os liberais antigos adversários, se coligaram para deter o avanço do Partido Socialista. Reavivou-se o sentimento nacionalista flamengo até que, no início da década de 1930, foi reconhecida oficialmente a paridade lingüística, declarando-se o flamengo como a língua oficial das províncias do norte e o francês como a da região valã. A duplicidade de idiomas tem sido causa de agitações permanentes.
O rei Alberto I foi sucedido por Leopoldo III (1934-1951). Diante do delicado panorama político europeu, a Bélgica manteve sua política de neutralidade e em 1937 conseguiu que a Alemanha, a França e o Reino Unido se comprometessem a garantir sua integridade territorial.
Segunda guerra mundial. A "guerra-relâmpago" empreendida pela Alemanha na frente ocidental levou à invasão da Bélgica em maio de 1940. Após alguns dias de resistência, em 28 de maio o rei Leopoldo III capitulou e se entregou prisioneiro aos alemães.
Entretanto, dirigentes belgas fugiram para Londres, onde encabeçaram a resistência à ocupação alemã, que durou até o outono de 1944, quando as tropas aliadas chegaram à fronteira holandesa. Os alemães tentaram ainda, em dezembro daquele ano, uma grande contra-ofensiva nas Ardenas, com o objetivo de ocupar novamente Antuérpia, que se convertera em base aliada. O ataque foi contido em janeiro de 1945, livrando definitivamente o território belga da guerra, embora algumas cidades ainda fossem bombardeadas por foguetes V-2 alemães.
O pós-guerra: O rei Leopoldo, desprestigiado pela capitulação aos alemães, cedeu seus poderes ao filho Balduíno e abdicou em 1951. Começou então uma época de grande desenvolvimento econômico no país e em toda a Europa. Mas o problema flamengo-valão ressurge periodicamente, provocando tensões e instabilidade no governo. A independência do Congo Belga (atual Zaire) em 1960 e a de Ruanda-Urundi em 1962 representou para a Bélgica um sério golpe econômico e psicológico, embora o país logo se recuperasse. Com a morte do rei Balduíno (1951-1993), assumiu o trono seu irmão, Alberto II.
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